Cabo Verde vibra com seus heróis e a família de Vozinha completa

Dona Ana Cândida Évora era uma dos milhares de cabo-verdianos que deliraram com empate com o Uruguai e falou à FIFA sobre essa jornada.

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Redação HJ News

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Aos 23 minutos do segundo tempo, a torcida de Cabo Verde foi silenciada em Miami. Um cruzamento rasteiro pela direita pegou a defesa desprevenida, e, numa bola espirrada, Vozinha se esticou para tentar controlá-la. Acontece que lá também estava Maxi Araújo para disputá-la e, num lance confuso, voltar a balançar a rede.

O inspirado atacante uruguaio já havia saído em disparada para comemorar quando veio um gesto que gerou alívio: o árbitro norueguês Espen Eskas ergueu seu braço direito para apontar impedimento.

Imediatamente, parte das arquibancadas passaram a gritar, por um bom tempo, o nome de Vozinha. O goleiro que brilhou na estreia contra a poderosa Espanha e novamente muito exigido em mais uma batalha contra um campeão mundial – terminando novamente com um empate: 2 a 2. Resultado que mantém abertas as portas para Cabo Verde avançar à fase decisiva da Copa do Mundo da FIFA 2026™.

Em meio à plateia, as emoções não poderiam ter sido mais fortes do que para uma torcedora específica: Ana Cândida Évora, a mãe de Vozinha. “Muita emoção. O coração quase foi pra boca. Mas hoje é pé quente, o coração, para nosso país, que acreditaram no primeiro jogo. Temos fé. Fé e esperança. Eu tenho orgulho de Cabo Verde”, disse à FIFA.

Ana Cândida chegou aos Estados Unidos dois antes desse eletrizante jogo pela segunda rodada do Grupo H da Copa. “Eu nem tinha passaporte. É a primeira vez que saio de Cabo Verde”, afirmou a mãe, cuja cria soma agora com mais de 15 milhões de seguidores no Instagram. Quando o Mundial começou, a conta não passava de 50 mil.

“É bonito, muito bonito. Eu não tenho nem palavras para dizer. Ele tem passado por muitas coisas, é muita emoção, mas ele fez um bom jogo e vai fazer a mesma coisa. O jogo é jogado em 90 minutos.”

Na saída de campo, Vozinha falava com tranquilidade, mas também com o tom de alguém que saiu exaurido, física e emocionalmente, de um dos jogos mais emocionantes do torneio até aqui.

“É a realização de um sonho nosso e de todos cabo-verdianos, estar aqui para dignificar isso é uma alegria”, disse o goleiro. “Hoje vejo uma equipe muito forte e com grande mentalidade.”

Quando questionado sobre a virada na sua vida – virtual? –, o veterano de recém-completos 40 anos sorriu. “Venho tentando responder as pessoas mais próximas, os amigos, ainda não respondi todo mundo. Tem sido uma loucura.”

De fato: quando os 11 titulares de cada seleção foram apresentados nos telões do estádio de Miami, o nome do goleiro foi muito mais aplaudido que o de um astro multicampeão pelo Real Madrid: Federico Valverde.

Após os dois gols uruguaios, a torcida já havia gritado seu nome em incentivo. Assim como soltaram um grande “olé” quando Vozinha driblou o mesmo Maxi Araújo minutos depois daquele enorme susto.

Mas os milhares de cabo-verdianos espalhados em meio a um mundaréu de camisas Celestes não estavam lá, claro, apenas para aplaudir o goleiro. De alguma forma, eles se fizeram escutar durante todo o jogo para reverberar o conto de fadas dos Tubarões Azuis.

“É incrível, porque havia uma multidão de torcedores do Uruguai hoje. Parecia um jogo em casa para o Uruguai, mas ainda assim conseguíamos escutar bem os cabo-verdianos”, relatou à FIFA o zagueiro Pico Lopes.

No intervalo da partida, quando o placar apontava 2 a 1 para os sul-americanos, conversamos com algumas dessas vozes. Eles lamentavam a virada sofrida, mas o que sentiam obviamente transcendia o placar.

“É muita emoção chegar aqui um país bem pequeno, com muita luta. Não temos o desenvolvimento de outros países. Mas estamos todos juntos aqui, e esse é o nosso mantra: junta a mão, literalmente, e chegar até o fim”, afirmou o engenheiro Rafael, de 29 anos que vive em Rhode Island. Ele tinha a voz já bem rouca e admite que assistiu à partida contra a Espanha enquanto estava no escritório do trabalho.

Cláudio, de 49 anos, curiosamente também viajou desde Rhode Island e estava em sua segunda partida de Copa do Mundo, depois de ter comparecido à estreia em Atlanta. “A classificação para vir à Copa já é uma alegria que não tem como descrever. Empatar contra a Espanha e marcar um gol contra o Uruguai é uma vitória para nós. Se a gente sair daqui com um empate, vamos sair felizes”, disse, quase de modo profético.

Pico Lopes não poderia agradecer mais por essas palavras: “Isso explica muito do que estamos fazendo. Estamos dando a eles motivos para vibrar, e o apoio deles nos dá aquele ânimo extra — eles são, de fato, nosso 12º jogador. A motivação que sentimos ao mostrar a eles que estamos competindo no mais alto nível do futebol mundial é enorme.”